Me joguei na cama, a cabeça ainda virando, o efeito do que quer que fosse que eu havia usado passando, e aquela maldita sensação de tontura e de sufoco começando. Fechei os olhos pra ver se a zonzeira passava, mas a situação só piorou. O motivo de toda aquela agonia e desespero.
Ela.
Puxei o ar com força, como se fosse a última coisa a se fazer e deixei ele sair aos poucos enquanto sentia meu corpo se acalmar, eu estava acabando com a minha vida por causa de alguém que nem ao menos tinha noção do significado da palavra consideração. Aquele seria o maior e pior motivo de toda a desgraça que minha vida vem se tornando, mas eu já estava começando a me acostumar. Era a maldição por amar alguém incapaz de sentir, eu estava começando a deixar de sentir também. Me sentia cada vez mais insensível, intocável e impenetrável a cada segundo. Nada mais satisfazia, sorrir? Era algo que eu não me lembrava á semanas. Uma leve batida na porta me despertou de meus pensamentos e abri os olhos, olhando a porta fechada.
- Marcelo? Filho? Está aí? - A voz de minha mãe, uma das poucas coisas que me acalmavam e me causavam dor. Ela sempre fora tão boa pra mim. Não merecia o filho que tinha.
- Tudo sim, mãe. Só estou com um pouco de dor de cabeça... - Menti, forçando a minha voz ao máximo para não falhar.
- O jantar está pronto. Vai descer? - Ela perguntou, a voz carinhosa abafada pelo bloco de madeira nos dividindo, mas eu sentia que era muito mais o que me afastava de um abraço reconfortante dela.
- Mais tarde, mãe. Não estou com muita fome - Menti novamente e a ouvi murmurar um "Que Deus te guarde, meu filho", ela sempre fazia isso. Deus. Nesse eu já não acreditava faz tempo. Como Papai Noel, não era mais do que uma invenção para entreter as mentes mais distraídas de procurar a verdadeira razão dessa vida muitas vezes hipócrita e sem rumo.
Voltei a jogar minha cabeça pra trás, sentindo os últimos indícios de que o efeito começava a passar. Respirei fundo uma última vez e levantei da cama indo para o banheiro e tomando uma ducha fria e rápida. Dizem que duchas frias limpam nossa alma e afastam os problemas e tristezas. Nunca fui muito de acreditar nessas crenças populares, mas na situação que estava, até pé de coelho seria bem vindo. Saí do banho e encarei minha imagem refletida naquele pedaço de vidro espelhado. Parecia como um adolescente normal, com seus 17 anos bem vividos numa boa família de classe média alta e sempre feliz. Mas por trás daqueles olhos azuis, se escondia o mais sombrio dos seres. Treinei durante uns dez minutos ali o que mais pudesse se aproximar de um sorriso, ou uma expressão serena e sai do quarto, me sentando na mesa com meus pais e minha irmã caçula. Desejava tanto para que ela não sofresse o mesmo que eu quando descobrisse os sentimentos.
- Filho, temos uma boa notícia - Meu pai falou e eu fingi o máximo de interesse que pude, mesmo sentindo apenas repulsa aquela comida a minha frente que eu começaria a ingerir sem sentir o sabor, apenas para disfarçar.
- Seu pai foi promovido, meu filho! Vai ganhar o dobro do salário em um cargo de maior importância! - Minha mãe disse animada e eu enchi minha boca de comida para não ter de fingir um entusiasmo maior do que eu podia alcançar.
- Que ótimo pai! - Falei, com a boca cheia e ele sorriu.
- Finalmente vou poder comprar aquela casa que sua mãe sempre quis - Ele disse, com os pensamentos longes e cortou meu coração ver que reclamava tanto por tão pouco - E você filho, vai poder fazer a faculdade que tanto queria.
Fiquei sem resposta, há muito havia desistido de me formar, minhas notas decaíam a cada bimestre e eu já chegara a faltar duas semanas seguidas para ficar na rua vadiando e me drogando. A comida em minha boca parecia uma maça espessa de vidro cortado descendo pela minha garganta estreita. Sorri, sem ânimo, mas o sufiente para meu pai se sentir orgulhoso e voltar para os sonhos dos outros membros da família. Vivia daquele jeito á tanto tempo que não sabia mais o que era ter uma emoção verdade, era sempre um disfarce.
Uma realidade disfarçada.